O Peru de Natal

O texto que apresentamos e abrimos as categorias “Natal Afetivo” e “Cozinha Literária Afetiva” é do Mário de Andrade. Foi extraído do livro “Nós e o Natal”, Artes Gráficas Gomes de Souza, Rio de Janeiro, 1964, pág. 23. Este texto nos foi presenteado por Albinha, amiga querida, baiana, do mundo, morando em São Paulo sei lá há quanto tempo é com quase dois pés em Olivença na Bahia.

Não tenho uma ordem precisa dos temas que irei incluir no blog, porém uma das minhas certezas era falar da afetividade da Alba (Alba Diniz, filha da Dona Terezinha, nossa “mainha”), traduzida na forma de receber e acolher dezenas de pessoas que necessitam de um retorno afetivo as suas origens maternas, caseiras e culinárias. A casa da Albinha, com sua cozinha grande e acolhedora, é um ponto de referência para nós emigrantes e para paulistas desgarrados. Em outra oportunidade, ainda desejo reproduzir o peixe de forno ou alguma receita rápida de Miojo criada por ela, porém o conto “O Peru de Natal”, longo para blog (paciência!), nos pegou de forma afetiva e sensorial, pela extrema coragem, simplicidade, veracidade e afeto que Mario de Andrade impregna na descrição de uma ceia natalina. Este texto foi escolhido por Alba para nosso sarau da sexta, 26/11/2010.

Mário de Andrade (1893-1945) nasceu na cidade de São Paulo no dia 9 de outubro, filho de Carlos Augusto de Moraes Andrade e Maria Luísa Leite Moraes Andrade, na Rua Aurora, 320. Sua obra, essencialmente brasileira, reflete um nacionalismo humanista, que nada tem de místico e abstrato. “Macunaíma”, baseada em temas folclóricos é, geralmente, considerada a sua obra-prima. Participou da Semana de Arte Moderna em São Paulo, no Teatro Municipal, entre 11 e 18 de fevereiro de 1922 (A Semana de 22) em companhia de Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Víctor Brecheret, Anita Malfatti, Menotti Del Pichia, Sérgio Milliet e Heitor Villa-Lobos. O site http://www.releituras.com/marioandrade_bio.asp apresenta a biografia e a obra de Mário de Andrade, o autor de “O Peru de Natal”. 

Mário de Andrade - Quadro de Lasar Segall

O Peru de Natal – Mário de Andrade

O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de consequências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.

Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a idéia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.

Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a idéia de fazer uma das minhas chamadas “loucuras”. Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, de uma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de “louco”. “É doido, coitado!” falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.

Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes…), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas “loucuras”:

— Bom, no Natal, quero comer peru.

Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.

— Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania… Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo…

— Meu filho, não fale assim…

— Pois falo, pronto!

E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de sopetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.

Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus “gostos”, já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a… culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:

— É louco mesmo!…

Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado: assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.

— Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!

Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só-pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a quotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus… Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.

— Eu que sirvo!

“É louco, mesmo” pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heróica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo de um pedaço admirável da “casca”, cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:

— Se lembre de seus manos, Juca!

Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.

— Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!

Foi quando ela não pode mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos… Diabo de família besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.

Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.

Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.

— Só falta seu pai…

Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:

— É mesmo… Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente… (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.

E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara tanto por nós, fora um santo que “vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai”, um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.

Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever «felicidade gustativa», mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.

Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!

A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor… Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de “bem-casados”. Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.

Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!… 

O Peru de Natal

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Carmem Miranda na Cozinha Afetiva

Como transformar uma cozinha de dimensões mínimas em um espaço criativo e afetivo? As fotos deste post são de 2009 da 2ª edição do Projeto Vitrine – Mostra de Decoração no Tropico´s Florense, na cidade de Santos (SP). O projeto é do arquiteto Ricardo Velasco, que foi buscar na essência da Carmen Miranda a inspiração para transformar o pequeno espaço da cozinha em um ambiente criativo e com referências nas cozinhas antigas das nossas melhores memórias culinárias.

Olhando as fotos do espaço, a imagem colorida e brasileira da Carmem Miranda e as letras de alguns sucessos que eternizaram a Portuguesa/ Brasileira/ Baiana, percebi como esta pequena notável carregava uma grande identidade culinária, a começar pelos adereços de cabeça recheados de frutas tropicais. Quem não gostaria de ter uma fruteira na sua mesa de cozinha com a explosão de cores que trazia a Carmem Miranda? Com todos estes elementos, Ricardo usou os ingredientes na medida, com preparo exato e obtendo um resultado criativo e afetivo.

 

 

Cozinha da Carmem Miranda

  

 

Cozinha da Carmem Miranda

  

 

Cozinha da Carmem Miranda

 

 

 

Cozinha da Carmem Miranda

 

Carmem Miranda e a Cozinha Afetiva

Tico-Tico No Fubá / Abreu Gomes
“… O tico-tico tá
Tá outra vez aqui
O tico-tico tá comendo o meu fubá…”
“…Ó por favor, tire esse bicho do seleiro
Porque ele acaba comendo o fubá inteiro
Tira esse tico de cá, de cima do meu fubá
Tem tanta coisa que ele pode pinicar
Eu já fiz tudo pra ver se conseguia
Botei alpiste pra ver se ele comia
Botei um galo, um espantalho e alçapão
Mas ele acha que fubá é que é boa alimentação…”

Camisa Listrada / Assis Valente
“…Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí
Em vez de tomar chá com torrada ele tomou parati…”

South American Way / Aloysio de Oliveira
“… E vende vatapá
E vende caruru
E vende mungunzá
E vende umbu
No tabuleiro tem, tem de tudo, tem
Só não tem meu bem berenguendem…”

Disseram que eu voltei americanizada / Luis Peixoto e Vicente Paiva
“…Enquanto houver Brasil
Na hora das comidas
Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu…”

E por falar em camarão com chuchu, procurei por receitas de ensopadinho e optei pela receita abaixo, disponível no site http://receitas.maisvoce.globo.com. O motivo? Leva coentro na receita.

1 – INGREDIENTES

  • 750 g de camarões pequenos descascados, limpos, lavados e escorridos
  • 2 colheres (sopa) de suco de limão
  • Sal e pimenta-do-reino a gosto
  • 4 colheres (sopa) de azeite
  • 1 cebola média picada
  • 1 dente de alho picado
  • 3 tomates grandes picados, sem pele e sem sementes
  • ½ pimenta vermelha picadinha
  • 2 chuchus médios descascados e cortados em cubinhos
  • +/- 250 ml de água quente (para pingar se necessário)
  • 2 colheres (sopa) de coentro picado

2 – MODO DE PREPARO

  • Numa tigela tempere os camarões pequenos descascados, limpos, lavados e escorridos com 2 colheres (sopa) de suco de limão, sal e pimenta-do-reino a gosto e reserve.
  • Numa panela em fogo médio aqueça  4 colheres (sopa) de azeite e refogue 1 cebola média picada e 1 dente de alho picado por +/- 5 minutos.  Junte o camarão temperado e refogue por + 2 minutos.
  • Retire o camarão da panela (para ele não emborrachar) e reserve-os.
  • Coloque os camarões numa peneira para retirar o excesso de caldo que se forma, e volte o caldo para panela.
  • Na mesma panela (e com caldo do camarão que se formou) em fogo médio junte 3 tomates grandes sem sementes e sem pele picados, a pimenta vermelha picadinha e 2 chuchus médios descascados e cortados em cubinhos. Acerte o sal.
  • Tampe a panela e cozinhe em fogo baixo por +/- 12 a 15 minutos (se necessário vá pingando água quente aos poucos para não queimar o chuchu).
  • Acrescente o camarão refogado reservado e 2 colheres (sopa) de coentro picado. Sirva a seguir.

3 – DICA BAHIANA

 

Carmem Miranda na Cozinha

  • Na Bahia temos uma versão do ensopadinho de chuchu com camarão utilizando leite de coco e azeite de dendê (coloque a gosto).

Prato de Recordações

A recomendação abaixo é da Renata Rodrigues no Facebook da Cozinha Afetiva … gostei muito! Acho que Cozinha Afetiva também pode ser traduzida como UM BOM PRATO DE RECORDAÇÕES REGADO A MOMENTOS ETERNOS E SALPICADO DE AFETO. Ficou uma definição bem culinária e muito afetiva.

“Recomendo a todos que gostam e sabem apreciar um bom prato de recordações regado a  momentos eternos e salpicado de afeto – Renata Rodrigues.”

Pano de Prato

Simples e de grande utilidade, não há cozinha sem pano de prato, que na verdade poderia também ser chamado de pano de panela, pano de mão, pano para tudo. Minha mãe usava vários ao mesmo tempo… e coitado de quem misturasse o pano de prato de cobrir o escorredor de pratos com o pano de prato para as mãos ou o pano de prato que era usado para enxugar as louças, a pia ou limpar o fogão.

Muitas cozinhas por onde passei, e ainda passo, mantém a tradição dos vários panos para diferentes utilidades. Assim são, por exemplo, as cozinhas da Dal, amiga baiana morando em Brasília, e da Ed, outra amiga da Bahia que mora em Salvador. Por várias vezes nas cozinhas da Ed ou da Dal, sentir o peso do ato falho de enxugar a mão no pano errado. Gente de cozinha afetiva, de herança culinária tem seus rituais, e panos para diferentes usos fazem parte destes rituais. Este meu ato falho, dentre outros, foi batizado de “Cascão”, personagem do Mauricio de Souza. Hoje na minha cozinha procuro manter pelo menos dois panos, nada comparado com a cozinha da minha irmã Dalva, com mais de 5 tipos para usos diferentes (cobrir, enxugar mão, enxugar frutas e verduras, limpar fogão, enxugar louças, etc., etc. …).

Voltando a querida amiga Ed (Edivalma Santana, fotógrafa), nossa história teve início em 1970 no Colégio Municipal de Feira de Santana, e entre encontros e desencontros fomos vizinhos, porta a porta, por mais de 10 anos na especial Rua Fonte do Boi, no mágico bairro do Rio Vermelho, na mágica cidade do Salvador. Este foi um período de grandes memórias afetivas culinárias, pois nossas raízes de família são idênticas. Sopa, café da manhã, bolo, queijo Palmira, cozido, maniçoba, vatapá… tudo era compartilhado em um ritual de vai e vem diário. Na minha infância, vizinhos se presenteavam com pratinhos de comidinhas diferentes, e nunca o prato era devolvido vazio, ficava a espera de alguma iguaria culinária para que a gentileza fosse retribuída.

Nas minhas idas para Salvador procuro manter minhas origens afetivas com pessoas que marcaram minhas memórias culinárias. Ed é uma delas, e foi em um café da manhã, conversando sobre blog, fotos, eleição e pelourinho que fui surpreendido com um pano de prato que cobria a cesta dos pães. Um pano de prato de puro linho, delicadamente bordado a mão e com uma inscrição “Quinta Feira”. Memória automaticamente ativada. Era comum pano de prato dos dias da semana, de Segunda Feira ao Domingo, que deveriam ser trocados diariamente respeitando os dias da semana. Os da Ed foram herdados da Dona Lili, sua mãe. Os 7 panos tem mais de 55 anos, faziam parte do enxoval de casamento da Dona Lili e foram feitos e bordados por ela. São desenhos simples, delicados, coloridos e com cenas de tarefas diárias de uma dona de casa, um retrato da época. O meu preferido é o sábado, onde a menina da cena retira um bolo do forno.

Pano de Prato - Sábado - Tirando o bolo do forno

O café na casa da Ed foi mais que especial e os panos estão aqui retratados.

Procurei muito a origem ou história do pano de prato e não encontrei. Panos com os dias da semana ainda são encontrados, porém  com dias da semana, de puro linho e bordados a mão são uma raridade e podem ser excelentes presentes para os amantes da cozinha afetiva.

O pano de prato é a roupa de cozinha mais representativa da cozinha afetiva.


Bolo de Milho com Goiabada

Abrindo a categoria dos Doces Afetivos, mais uma receita com ingrediente de afetividade. Josias Júnior, médico, anestesista, com trilhões de atividades diárias, tem como especialidade a cozinha dos doces. Não há festa de aniversário, natal ou qualquer outra celebração que os bolos e doces da cozinha afetiva do Josias não estejam presentes. Como todo bom “dono de cozinha”, Josias, pernambucano, criado no Mato Grosso e que adotou São Paulo como residência, tem um cuidado muito especial com suas receitas e ingredientes.

Não foi difícil escolher a receita para a abertura desta categoria, o bolo de milho com goiabada, de fácil preparo e extremamente saboroso, faz sempre sucesso e já é cadeira cativa nas nossas festas juninas e trezenas de Santo Antônio todos os anos. A origem da receita é duvidosa, provavelmente passada de alguma alma afetiva que cruzou as cozinhas por onde Josias circulou, porém como bom alquimista de toda cozinha afetiva, ele já transformou a receita, chegando a um resultado fantástico. Experimentem!

Josias Júnior

1 – INGREDIENTES

  • 4 ovos
  • 200g de milho verde
  • 200 ml de leite de coco
  • 100 ml de óleo
  • 400 g de açúcar
  • 25 g de fermento em pó químico
  • 120 g de farinha de milho em flocos pré-cozida
  • 300 g de goiabada

2 – MODO DE PREPARO

  • Pré aquecer o forno, 20 a 30 minutos antes (180 °C).
  • Bater todos os ingredientes no liquidificador por aproximadamente 3 minutos, exceto a goiabada.
  • Forrar uma forma redonda (28 cm) de fundo removível com papel manteiga.
  • Cortar a goiabada em lâminas e forrar o fundo da forma.
  • Adicionar a massa sobre a camada de goiabada.
  • Assar por aproximadamente 40 min em forno a 200 °C.
  • Desenformar o bolo ainda morno.

O Bolo de Milho com Goiabada, assado e antes de desenformar

Bolo de Milho com Goiabada

3 – OBSERVAÇÕES

  • Não entre em desespero na hora de desenformar o bolo, é normal que a retirada do papel manteiga possa levar junto alguns pedacinhos das laterais e beiradas do bolo. Normal. Pela textura muito macia e esfarelada, este bolo não é uma preciosidade na aparência, porém é muito mais que uma preciosidade no sabor.

Bolinho de Chuva

Bolinho de chuva é uma especialidade típica tanto em Portugal como no Brasil. É feito de farinha de trigo, ovos, leite e fermento químico ou bicarbonato de sódio. Os bolinhos são fritos em óleo quente e polvilhados com canela e açúcar. O sabor é similar a Bola de Berlim, conhecido no Brasil como sonho.

O bolinho de chuva tornou-se mais conhecido no Brasil graças ao programa de televisão Sítio do Picapau Amarelo, onde a cozinheira Tia Nastácia sempre fazia esses bolinhos para Pedrinho, Narizinho e para a boneca de pano Emília.

Temos várias histórias sobre a origem do bolinho de chuva. Uma visita ao Google Web revela 118 mil referências, enquanto o Google Imagens apresenta 64 mil imagens do produto. Selecionamos a história abaixo, disponível no http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20070525073229AAvAcFc.

Google Imagens – Imagens de Bolinhos de Chuva

“Em sua versão original, no final do século XVIII, a receita do Bolinho era feita com mandioca ou cará. O trigo era pouco, caro, vinha de Portugal, e raras eram as receitas com a “Farinha do Reino”. Em compensação, o bolinho era feito com muitos ovos, açúcar, leite, frito em gordura de porco. Tinha muitos nomes carinhosos como Quero Mais, Quero Quero, Desmamados. Nunca teve a pretensão de ser doce de Sinhá, nem ter a delicadeza dos complicados pontos de caldas, das massas moldadas durante horas por mãos finas e delicadas. Sua vocação sempre foi o sabor e o encanto dos olhos das crianças, que ansiavam pela hora em que eles saíam dos tachos dos fogões de lenha, quando eram generosamente polvilhados com açúcar e canela perfumada. Descontraídos, afetivos, leves, por muito tempo foram a comida do entrudo, do carnaval de então. Eram chamados de Filós de Carnaval, assim, com sotaque português. Levavam o sabor de mãos escravas e, talvez por isso, alguma sinhazinha ciumenta tenha lhes apelidado de Bolinhos de Negra. Muitas escravas saíram do anonimato para ligar seus nomes a essa receita, homenagem que atravessou os séculos: ainda se encontram cadernos de receitas onde ele é chamado de Bolinhos da Negra Ambrósia ou da Negra Marcionila. A mais famosa entre as autoras do Bolinho foi sem dúvida criada por Monteiro Lobato. Não há episódio entre as histórias do Sítio do Picapau Amarelo que não termine com Narizinho, Emília e Pedrinho comendo os Bolinhos de Tia Nastácia. Lembra infância. Porque bolinho de chuva? Alguém, em alguma tarde de chuva do século XX, disse, que os bolinhos traziam a alegria às horas em que não se podia correr ou brincar nos quintais por causa do tempo chuvoso”.

Nas 118 mil referência disponíveis no Google encontramos várias receitas dos bolinhos, inclusive no programa Mais Você da Ana Maria Braga do dia 19 de julho de 2000. Ver link da receita (http://www.youtube.com/watch?v=z1WeBlheHv8).

Não iremos apresentar receitas, escolham a sua através de uma rápida pesquisa no Google. Nosso objetivo com este post é reforçar a presença de produtos disponíveis no mercado Brasil que valorizam e preservam a verdadeira cozinha afetiva, e nada mais afetiva que um bolinho de chuva, a mais perfeita tradução da nossa memória afetiva culinária. Neste contexto temos os bolinhos de chuva da Dona Benta (www.donabenta.com.br/sitio), lançados em 2002, em 3 sabores (Tradicional, Fubá e Banana), de fácil preparo e com aval do Sítio do Picapau Amarelo.

Dona Benta Sítio do Picapau Amarelo – Bolinho de Chuva Tradicional

Também disponível no mercado do Sul e Sudeste o bolinho de chuva do Moinho Globo (www.moinhoglobo.com.br) na versão Tradicional.

Globo – Bolinho de Chuva Tradicional

Torta de Batata de Avinha e Bolinho Afetivo de Arroz

Com a Torta de Batata e o Bolinho de Arroz de Avinha (na Bahia o “de” é um genérico para “da” e ”do”), abrimos as receitas afetivas da Cozinha Afetiva. Na nossa essência procuramos resgatar receitas de família e não poderia deixar de abrir o blog com receitas da minha família, mais precisamente da minha irmã Dalva (Avinha para nós), que sempre nos encanta com sua Afetiva Torta de Batata e seus Afetivos Bolinhos de Arroz.

Como sempre, elas as afetivas donas das cozinhas, fazem tudo de “cabeça”, de “olho”, de “mão”, nada está escrito, nada é medido, e já entendi nesta primeira tentativa de resgate da memória culinária como será divertido, corrido e trabalhoso transcrever as receitas destas afetivas senhoras e senhoritas, que executam suas receitas com um dom especial, sendo quase impossível acompanhá-las a tempo de resgatar todos os detalhes e segredos que estão embutidos no ato do preparo.

Também já entendi que não é possível parar, esperar, repetir algum detalhe ou quanto vai de algum ingrediente que a princípio não conseguimos medir. Receita de cozinha afetiva é mesmo feita com uma grande dose de sabedoria e dom.

Estas duas receitas faziam parte das comemorações e datas especiais da nossa família. O bolinho de arroz era literalmente “arroz de festa” em todos os aniversários, em tempos que festas de aniversários eram preparadas nas casas, onde a movimentação, os aromas, os barulhos e as confusões da preparação nos deixavam ansiosos e felizes aguardando o grande dia da festa.

1 – TORTA DE BATATA DE AVINHA


RECHEIO

Ingredientes:

  • 1 kg de carne moída
  • 1 Cebola grande
  • 1 Pimentão verde médio
  • 100 g de camarão seco moído
  • 100 g de azeitona fatiada
  • 1 lata de ervilha
  • Sal
  • Pimenta-do-reino
  • Cominho
  • Óleo
  • Vinagre
  • Cheiro verde (coentro, cebolinha e salsinha)
  • Azeite doce

Preparo:

  • Cortar o alho em pedacinhos, acrescentar o sal, pimenta do reino, cominho e vinagre. Misturar tudo e amassar em um machucador de madeira.
  • Acrescentar o tempero preparado no machucador de madeira à carne moída e deixar apurar por 20 minutos.
  • Esquentar o óleo em uma panela grande, acrescentar a carne temperada, a cebola e o pimentão em pedacinhos, o camarão seco moído, coentro, cebolinha e a salsinha.
  • Cozinhar mexendo para não pegar no fundo da panela.
  • Quando a carne estiver dourada e cozida acrescentar a azeitona fatiada e a ervilha.
  • Deixar cozinhar por mais 5 minutos e ao final acrescentar uma porção generosa de azeite doce.
  • Reservar.

MASSA

Ingredientes:

  • 1 ½  kg de batata
  • 3 ovos
  • ½ litro de leite
  • 8 colheres de sopa de farinha de trigo com fermento
  • 150 g de queijo parmesão ralado ou moído
  • 3 colheres de sopa de manteiga
  • Sal

Preparo:

  • Cozinhar a batata na água e sal.
  • Amassar as batatas no espremedor.
  • Acrescentar o leite e os ovos a batata amassada, mexer.
  • Acrescentar a farinha, a manteiga e o queijo parmesão (reservar 1 colher de sopa do queijo para polvilhar a torta) aos poucos, mexendo para não formar grumos.
  • Reservar.

MONTAGEM E COZIMENTO DA TORTA

  • Utilizar refratário Grande.
  • Untar com azeite doce.
  • Adicionar metade da massa de batata ao fundo do refratário.
  • Rechear com a carne moída.
  • Adicionar a outra metade da massa de batata, cobrindo a carne moída.
  • Polvilhar com o queijo ralado parmesão.
  • Assar em forno pré-aquecido (200oC) até dourar.

2 – BOLINHO AFETIVO DE ARROZ

Ingredientes:

  • 4 xícaras de arroz cozido, já com sal
  • 3 xícaras de leite
  • 150 g de queijo ralado ou moído
  • 4 ovos
  • 8 colheres de sopa de farinha de trigo com fermento
  • Sal
  • Óleo

Preparo:

  • Adicionar todos os ingredientes ao liquidificador e bater até formar uma massa lisa.
  • Aquecer o óleo em uma frigideira grande.
  • Adicionar colheradas (de sopa) da massa.
  • Fritar até dourar.
  • Retirar o bolinho da frigideira e eliminar o excesso de óleo pressionando-o com uma espátula ou espumadeira.
  • Depositar os bolinhos em um prato e polvilhar com queijo parmesão ralado ou moído.

3 – IMPORTANTE

  • A farinha de trigo com fermento pode ser substituída por farinha de trigo sem fermento, adicionando-se uma colher de sobremesa de fermento em pó.
  • Na Bahia azeite de oliva era (ou é) conhecido como azeite doce, provavelmente para diferenciar do azeite de dendê, tradicional ingrediente da culinária baiana.
  • Sal, pimenta-do-reino, cominho, óleo, vinagre, cheiro verde (coentro, cebolinha e salsinha) e azeite doce são ingredientes adicionados “a gosto”.
  • O machucador de madeira é um utensilio tradicional da cozinha do nordeste, disponível em feiras livres e em alguns supermercados da região. No site www.mercadolivre.com.br, pode ser comprado ao preço de R$ 19,00 (dezanove reais), consulta realizada em 31/08/2010.

Afeto

Afeto é a relação de carinho ou cuidado que se tem com alguém íntimo ou querido. Permite ao ser humano demonstrar os seus sentimentos e emoção a outro ser vivo. Na cozinha, sentimentos e emoções podem ser traduzidos em comida… comida afetiva.

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