Festa de Aniversário (de antigamente) – post 100!

Uma festa de aniversário de antigamente (anos 60)

O melhor da festa de aniversário de antigamente era a movimentação que acontecia na casa nos dias – ou meses – que antecediam a data festiva. Lembro com muita clareza do corre e corre da minha mãe, irmãs, tias e vizinhas planejando, fazendo reuniões, trocando receitas e bandejas (ninguém tinha bandeja suficiente para suportar uma festinha), em uma união perfeita de comadres.

Uma vez decidido o tema do bolo, as surpresinhas, os docinhos, salgadinhos e bebidas, todas partiam para elaboração da festa. Das movimentações observadas na casa, a mais afetiva e encantadora era a elaboração das comidas. O aroma do bolo assando, pastéis fritando, docinhos sendo enroladas por várias mãos, mãos de carinho e de educação severa, que transitava entre a maciez dos afetos e a dureza dos castigos.

Todas as festas tinham, praticamente, o mesmo cardápio: rabo de tatu – em bandejas forradas de alfaces e decoradas com flores de tomates vermelhos e pétalas de pimentões verdes –, pastéis de carne, quibes, empadinhas, pãezinhos – pão de forma em triângulo, sem a casca, com recheio de patê de presunto ou queijo. Para os pãezinhos, havia um ritual curioso de cobrilos após o preparo com um pano de prato úmido, evitando o ressecamento, uma sabedoria de mãe, de tia, de madrinha.

Na mesa farta, com o bolo confeitado e salgados diversos, coberta com a melhor toalha da casa (provavelmente do enxoval do casamento) e com lindo jarro de flores naturais, ainda eram colocados os pratinhos, copos, taças, talheres, surpresinhas, brigadeiros, beijinhos, olhos de sogra e cajuzinhos. Para os adultos sempre havia um peru assado em fatias, “proibido” para as crianças, que ignoravam o rigor da proibição, desobedecendo sorrateiramente às ordens das matriarcas.

Algumas festas serviam refrigerantes, k-suco e um ponche sem álcool, cor de vinho, doce como mel, minha melhor lembrança das bebidas, nos fazendo sentir adultos.

Toda esta memória afetiva de aniversários veio através da releitura do livro “O SAL É UM DOM – Receitas de Mãe Canô” (De Mabel Veloso / Fotografias de Maria Sampaio – Corrupio / Nova Fronteira 2008). Na página 40, encontra-se uma foto em P&B de uma afetiva mesa de aniversário pronta, prontinha para a festa. As bandejas extrapolam os limites da mesa, invadindo as peças e cristaleiras da mobília da sala, muito comum nas festas de antigamente, igual como era feito na minha casa materna e casas dos meus parentes e amigos.

Hoje, as festas de aniversários são planejadas via internet, em sites de compras coletivas, em buffets frios e de plásticos, sem aroma de bolo, sem mãos carinhosas para enrolar docinhos e sem a movimentação afetiva das casas. Contratamos tudo, chegamos com nossas crianças na hora da festa, sorrimos, ficamos felizes por algumas horas, e horas depois nos esquecemos de tudo, ou quase tudo, pois as maquininhas digitais irão armazenar as 500 ou mais fotos, que serão esquecidas nos nossos PCs. Nas festas de aniversários de hoje não impregnamos nossa memória com o principal ingrediente fixador das lembranças eternas: o envolvimento de quem amamos como testemunha do nosso afeto no ato caseiro do preparo, no ato afetivo da cozinha.

Outra festa de aniversário de antigamente (anos 60)

____________________________

Ao meu irmão DôDô, in memoriam!

Voc pode deixar um comentário, ou trackback do seu próprio site.

Deixe um Comentário

*

Powered by WordPress | Designed by: Free MMO Games | Thanks to MMORPG List, Video Game Music and VPS hosting