O Caderno de Receitas da Dona Luciene

Caderno de Receitas - 1985

Fátima Falcão faz parte de uma das épocas deliciosas da minha vida, vida de estudante, de moradia coletiva, vida sem a preocupante consciência das responsabilidades de uma vida futura mais adulta.

Conheci Fá em 1980/1981, amiga de alguns amigos estudantes de Biologia na UFBA (Universidade Federal da Bahia). De lá para os dias atuais, e para os dias futuros, estaríamos ligados através de vários laços afetivos. Fá conheceu Zeinho, nasceu Nanda, minha afilhada querida, nasceu Théo, mudei de Salvador para São Paulo, e entre idas e vindas, sempre estamos nos encontrando, talvez, não na frequência desejada, mas na medida das nossas possibilidades.

Em 1885, Fá recebeu da sua mãe, Dona Luciene, um presente único, que 26 anos depois ainda frequenta a cozinha da casa; um Caderno de Receitas, com receitas da família Falcão, receitas simples, receitas elaboradas, receitas que deveriam também construir e pautar a nova família em formação, a família de Fá e Zeinho. Dona Luciene escreveu a punho em caderno escolar de linhas azuis, descreveu com carinho, afeto e precisão os modos de preparo e ilustrou as páginas com fotos de revistas da época.

Caderno de Receita

Cadernos de Receitas são (ou eram? boa discussão para um post futuro) os grandes guardiões das receitas de família, guardiões das memórias culinárias das nossas cozinhas. É um grande prazer abrir uma nova categoria no nosso blog (“Cadernos de Receitas Afetivas”*), com o Caderno de Receitas da Dona Luciene, presente para a filha Fátima em 1985, presente ainda hoje na cozinha da família Falcão. 

Caderno de Receitas

Rocambole do Caderno de Receitas (1985)

1 – INGREDIENTES

  • 1/2 kg de batata
  • 5 colheres de sopa de farinha de trigo
  • 5 ovos
  • 5 colheres de sopa de queijo ralado
  • 1 colher de sopa de manteiga
  • 1 xícara de leite de vaca
  • Sal a gosto

Receita do Rocambole

2 – MODO DE PREPARO

  • Cozinhe as batatas, passe na peneira ou espremedor;
  • Acrescente os ovos bem batidos, o queijo, o leite, a farinha de trigo e a manteiga. Ajuste o sal;
  • Amasse tudo e espalhe numa assadeira, já untada com manteiga e farinha de trigo;
  • Asse até corar levemente;
  • Deixe esfriar e desenforme o Rocambole assado sobre um pano de prato;
  • Acrescente o recheio sobre o Rocambole e enrole delicadamente com a ajuda do pano de prato e com cuidado para não quebrar.

3 – RECHEIO

  • Galinha desfiada ou carne moída com ervilhas, camarão ou bacalhau. “Jogue um gostoso molho de tomates” sobre o Rocambole.

4 – OBSERVAÇÃO

  • Na Bahia, rocambole de batatas é um prato complementar do almoço ou um prato único no café da noite (jantar). As receitas mais caseiras, descritas em antigos “Cadernos de Receitas”, não traziam o modo de preparo do recheio. Recheios são de domínio geral, a gosto da afetiva dona da cozinha. Pode ser de sobras do almoço ou elaborado com o que esta disponível no armário (salsicha, sardinha, camarão seco, verduras). O recheio mais elaborado (carne moída com ervilha, ovos e azeitona, bacalhau, frango desfiado, camarão) era usado para dias de festas e refeições especiais.
  • Na receita também temos uma recomendação de jogar um “gostoso molho de tomates” sobre o Rocambole. Temos certeza, que na visão da Afetiva Mãe que elaborou o caderno, molho de tomate é muito trivial, simples de fazer e não deveria ocupar espaço no caderno.

Pio IX do Caderno de Receitas (1985)

1 – INGREDIENTES

  • 6 ovos
  • 6 colheres de sopa de açúcar
  • 6 colheres de sopa rasas de farinha e trigo
  • Baunilha
  • Sal – 1 pitada

Receita do Pio IX

2 – MODO DE PREPARO

  • Bata as claras em neve, em seguida, acrescente as gemas;
  • Acrescente as 6 colheres de açúcar e bata bem até misturar por completo o açúcar;
  • Em seguida, acrescente as 6 colheres de farinha de trigo e um pouco de fermento e baunilha, tudo peneirado, misturando sem bater;
  • Adicione a massa em uma assadeira já untada com manteiga e farinha de trigo;
  • Asse até corar levemente;
  • Deixe esfriar e desenforme o Pio IX assado sobre um pano de prato;
  • Acrescente o recheio sobre o Pio IX e enrole delicadamente com a ajuda do pano de prato e com cuidado para não quebrar.

3 – RECHEIO

  • 1 lata de leite condensado e 2 colheres de sopa bem cheias de Nescau (levar ao fogo para dar ponto) ou goiabada machucada.

4 – OBSERVAÇÃO

  • Na lista de ingredientes não consta fermento, porém na descrição do modo de preparo o fermento aparece, devendo ser misturado à farinha e peneirado. A quantidade do fermento, como na maioria das receitas afetivas de mãe, não é declarada. Se você tem raiz na Cozinha Afetiva, vai saber exatamente o que significa “um pouco de fermento”, considerando que esta receita leva 6 colheres de sopas rasas de farinha de trigo. Também deverá saber o que representa “colheres rasas” e “um pouco de baunilha”. Esta é a verdadeira Cozinha Afetiva, feita com sabedoria e medida a mão e a olho.

*Para Dona Luciene in memórian!

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